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Quando abrir um vinho. Mitos e verdades.

Uma das grandes questões de qualquer enófilo, independentemente do seu grau de conhecimento, é saber quando abrir um vinho. Por vezes surge a dúvida se o vinho está a ser aberto demasiado cedo e se estamos a perder a possibilidade de provar esse vinho no seu apogeu. Todavia pergunta a ser feita é: existe um momento perfeito para abrir um vinho? A inclinação deste texto, contra a cultura habitual, será para responder que não. Como será abordado mais à frente, depende mais do gosto pessoal e do contexto do que de regras rígidas. Porém será também verificado que não existem só mitos sobre quando abrir um vinho, mas também algumas verdades, que, por vezes, se cruzam na mente do apreciador com os mitos prevalecentes.

Qual as origens da dificuldade de saber quando abrir um vinho?

Encontra-se na memória coletiva da enofilia que um vinho, quanto mais velho, melhor. Ou seja, devemos guardar e envelhecer um vinho pelo maior número de anos que seja possível. O vinho irá sempre melhorar com esse estágio, por mais prolongado que ele seja. Essa memória encontra-se ainda mais gravada nos enófilos portugueses, dado o potencial de envelhecimento dos melhores vinhos do Porto. Este mito vínico, que será abordado adiante, cria uma dificuldade acrescida aos Produtores, na recomendação de quando o seu vinho deve ser bebido. Pois, se recomendam uma janela de consumo para curto prazo, será apercebido como um vinho de menor qualidade, enquanto, se recomendam uma janela de consumo para um prazo mais longínquo, será considerado de melhor qualidade. Tal facto pode até levar o Produtor a recomendar a apreciação do seu vinho numa data posterior à que seria ideal para o seu consumo. Outro mito vínico a ser desconstruído mais à frente, é que todos os vinhos caros necessitam de tempo de guarda. O último mito que há a necessidade de esclarecer é sobre se existe um momento certo para abrir um vinho. E este será o último a ser abordado neste texto. Será ainda verificado que os mitos se confundem com meias-verdades, o que leva ao surgimento de afirmações categóricas sobre algo que pode não ser uma ciência exata, apesar de poderem existir fundamentos técnicos para tomar uma decisão sobre quando apreciar um vinho.

Primeiro mito: todos os vinhos melhoram com a idade.

Por outro lado, dentro do sector vínico existe outro mito inverso, referindo que 95% dos vinhos são consumidos 24 horas depois da sua aquisição. Porém, dificilmente se encontra um estudo fidedigno com esses dados. Certo é que num estudo conduzido em 2018 nos Estados Unidos, uma das maiores investigadoras de marketing de vinho, Liz Thach, refere que 90% dos vinhos são consumidos até duas semanas depois da sua aquisição. Apesar de ser francamente diferente da vox populi do sector do vinho, tendo em consideração que a maior parte dos vinhos que se encontram à venda são jovens, se são consumidos 15 dias depois da sua aquisição, são obrigatoriamente bebidos enquanto novos. Partindo do princípio de que a maioria aprecia os vinhos quando eles estão, pelo menos, num patamar de boa qualidade, conclui-se que existem vinhos prontos para ser consumidos quando jovens.  Muitos destes vinhos não ganharão em ser guardados.

Na Sala de Prova, poderá encontrar vinhos que estão prontos para ser consumidos ainda como jovens, não invalidando que alguns deles possam ainda ser preservados por alguns anos. Entre eles encontram-se muitos dos Vinhos Verdes Brancos, como o Quinto do Regaínho Reserva Loureiro ou o Alma Nua (Alvarinho). Contudo, não são só os vinhos brancos e da região dos Vinhos Verdes, que se encontram prontos para ser bebidos jovens. Na carta da Sala de Prova, encontrará ainda rosés jovens, como o Mimu’s Rosé da Moça ou o Manoella. Ambos são vinhos frescos, jovens e prontos a ser consumidos. Mas mesmo os vinhos tintos, nem todos necessitam de um estágio prolongado em garrafa para que os seus taninos fiquem aveludados e sem grande adstringência. Na Sala de Prova, pode provar, por exemplo, o Conceito Bastardo para o comprovar.

Primeira verdade: há vinhos que melhoram com a idade.

Por outro lado, também é verdade que existem vinhos que melhoram com a idade. O caso mais paradigmático em Portugal, é sem dúvida, os vinhos do Porto Vintage. Estes vinhos, quando são engarrafados, são como um diamante por delapidar. Têm uma beleza natural extrema já de início. Quem valoriza vinhos de enorme potência e intensidade, com sabores de fruta negra, aprecia-os desde o momento em que são engarrafados. Mas, tradicionalmente, são guardados em garrafas deitas por décadas, antes que a potência agressiva dos seus taninos e a intensidade de fruta se transformem em elegância e veludo. Na Sala de Prova, pode apreciar a potência da “juventude” de um Graham’s Stone Terraces Vintage 2021, ou a delicadeza do estágio em garrafa de um Taylor’s Vintage 1994. Este último foi reconhecido como o melhor vinho do ano pela Wine Spectator, que lhe atribuiu 100 pontos. Mas não são só os Porto Vintage que podem envelhecer. Na Sala de Prova, encontrará outros vinhos que, apesar de darem um grande prazer neste momento, têm uma longa vida pela frente. É o caso do vinho tinto do Douro, Quinta do Vale Meão 2021. O potencial de envelhecimento de guarda não é só conferido pela estrutura tânica dos vinhos tintos. Um excelente equilíbrio entre uma acidez fresca e elevada e um teor alcoólico moderado podem também ser traços promissores para guardar um vinho branco, como é o caso do Alvarinho Parcela Única de Anselmo Mendes, que também pode degustar na Sala de Prova.

Segundo mito: um vinho caro é um vinho de guarda.

Este mito deveria ser substituído por “há vinhos caros que envelhecem com a idade”, ou ainda de uma forma mais precisa por “quase todos os vinhos que envelhecem bem, são mais caros“. Esta segunda formulação é a que se aproxima mais da verdade. A vasta maioria dos vinhos que são pensados para envelhecer e neste envelhecimento deve ser contextualizado (se é feito em madeira pelo Produtor ou em garrafa pelo Consumidor), necessitam de cuidados na viticultura, vinificação e estágio que são mais caros. Normalmente são provenientes de vinhas com menor rendimento, o que concentra os sabores. mas diminui a quantidade. Podem ser feitas triagens das uvas na vinha ou na adega, ou estagiarem em madeira. Todas estas técnicas aumentam o preço do vinho.  Um estilo de vinho em que provém de quantidades pequenas de uvas por videira e pode obrigar a várias passagens pela vinha para colher as uvas nas melhores condições, são os Colheita Tardia. Apesar de ser um vinho com capacidade de guarda, é um vinho caro que habitualmente é consumido enquanto jovem, pouco tempo depois do seu engarrafamento. Na Sala de Prova, tem várias referências à sua disposição, incluindo o raríssimo “Mais Vale Tarde do Que Nunca”, proveniente de uma colaboração entre o Chef Ljubomir Stanisic e a Real Companhia Velha. Outros vinhos que têm o preço acima da média e que estão prontos a ser consumidos (aliás, que não ganham em serem guardados) são os Porto velhos. Neste caso, o preço justifica-se pelo empate de capital que o Produtor teve ao envelhecer os vinhos nas suas caves, evaporando grande parte dele à razão de 2% ao ano. Na Sala de Prova, o exemplo mais radical, tanto na qualidade como no preço, é o Very Very Old Port Vallado ABF (1888). Porém existem sugestões mais amigas da bolsa como o Vista Alegre 20 anos Tawny, ou não sendo Tawny mas sim Branco, o Dalva Colheita White 2011.

Cultura popular: Há um momento certo para abrir um vinho.

Essa afirmação tem tanto de mito como de verdade.

Mito

O que deve prevalecer é o gosto pessoal. Como acima mencionado, há quem goste dos vinhos do Porto Vintage, jovens e estruturados. Quem os aprecia com essas características deve consumir o vinho enquanto jovem. Por outro lado, há quem prefira a elegância e a fineza de um Vintage envelhecido por três ou mais décadas em garrafa. Quem tem essa preferência deve bebê-lo após esse período de estágio. Dizer que um dos grupos tem razão e o outro não tem será um pouco excessivo.

Verdade

Por outro lado, reconhece-se que há circunstâncias apropriadas para a abertura de um vinho. Essa escolha não se fundamenta apenas nas características sensoriais da bebida, visto que as preferências dos apreciadores são variadas, mas principalmente na relevância do momento em questão. Em ocasiões especiais, como celebrações de aniversário, Natal ou outros eventos significativos, é recomendável selecionar uma garrafa de vinho condizente com a importância da data. Obviamente que pode haver razões mais prosaicas, para a abertura de uma garrafa de vinho, como “está a apetecer-me beber vinho”. Esse não será até o melhor argumento para abrir uma garrafa mais comum ou mesmo especial, se nos estiver a apetecer?

Recomendações finais. Como conclusão, existem mitos e verdades sobre quando abrir um vinho. É certo que existem vinhos pensados pelo Produtor para serem guardados ou consumidos quando ainda são jovens. Mas o momento certo para definir quando deve abrir uma garrafa de vinho depende, acima de tudo, do seu gosto pessoal. Claro que esse gosto pode e deve ser educado. Se está a ler até ao fim este artigo, é com esse propósito. Para o educar, sugere-se que compre mais do que uma garrafa dos seus vinhos de eleição, e vá abrindo uma espaçadamente, para saber como é que gosta de beber esse vinho. Sobretudo não guarde demasiado tempo nem demasiadas garrafas para o futuro. Sempre é preferível achar que o vinho deveria ser bebido um pouco mais tarde, do que o vinho já ter passado o seu momento ótimo. Certamente, pelo menos uma vez no ano, tem uma oportunidade especial para abrir a garrafa também especial que tem andado a guardar há uns tempos. Nessa altura, poderá brindar com esse vinho à vida!